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ARNALDO FERRARI - UM OUTSIDER DA PINTURA
14 de setembro a 13 de outubro de 2006

O renascimento de Arnaldo Ferrari 

Um dos grandes nomes do construtivismo brasileiro, morto e injustamente esquecido há mais de 30 anos, volta ao circuito 
Antonio Gonçalves Filho 
Arnaldo Ferrari é um pintor cultuado entre críticos, mas não teve em vida o merecido reconhecimento público. Visionário, morreu em 1974, aos 68 anos, sem alcançar o patamar do amigo Volpi - como ele, um construtivista que abriu caminho para toda uma geração de artistas concretos. O poder antecipatório de Ferrari era tão impressionante que um dos antigos trabalhos expostos, a partir de hoje, na galeria Berenice Arvani, em homenagem ao centenário de nascimento do pintor paulistano, anuncia a mesma estrutura de um óleo recente do americano Sean Scully, um dos mais badalados artistas do circuito das bienais. Scully, é provável, jamais ouviu falar de Ferrari, mas os dois têm em comum o dom especial de reconhecer na geometria não uma prisão, mas uma porta para a liberdade.

Sean Scully, cujas pinturas já foram mostradas aqui, em 2002, na 25.ª Bienal de São Paulo, diz que aprendeu com o físico Albert Einstein a respeitar o mistério da ordem geométrica. ’Quando sei o que é uma coisa, já não tenho mais de pensar nela’, dizia o pai da teoria da relatividade. Assim, longe da rigidez que leva à clausura da perfeição, a pintura do americano sugere, segundo o próprio, a independência de uma ordem autoritária, defensora da absoluta precisão da forma.

De modo semelhante, Ferrari, um intuitivo pintor que pintava frisos e placas de estações ferroviárias, mostrou-se resistente a tanta rigidez concreta. Prezou até o fim sua independência de movimentos e escolas, apesar de ser amigo dos pintores do grupo Santa Helena (Volpi, Bonadei, Zanini) e Guanabara (Tomie Ohtake, Fukushima e outros). Pagou caro por isso. Solitário, individualista e introvertido, foi incompreendido por seus contemporâneos, mas acabou construindo uma obra para o futuro.

O físico e crítico de arte Mário Schenberg (1914-1990), um dos primeiros a reconhecer sua importância, nos anos 1960, concordava com o psicanalista e crítico Theon Spanudis (1915-1986), incentivador de Ferrari, ao afirmar que sua redescoberta seria apenas questão de tempo. Sob impacto da obra do pintor construtivo uruguaio Joaquín Torres García (1874-1949), a pintura de Arnaldo Ferrari evoluiu - sem traumas - da paisagem urbana para a abstração. Se Torres García trocou o olhar fauvista da urbe pela austeridade formal de um desenho esquemático, dissociando linha e cor, Ferrari reciclou as lições do mestre e aproveitou o funcionalismo ortogonal para renovar a ordem compositiva, preservando a autonomia das cores.

A ambição do construtivismo de Torres García era ilimitada. Pretendia com sua pintura ’ajustar a arte à lei da unidade que preside o cosmo’ - daí sua expressão ’universalismo construtivo’ que tanto impressionou Ferrari, ao sair da 1.ª Bienal de São Paulo com a certeza de ter testemunhado uma epifania. Esse foi, segundo o crítico e curador da mostra, Celso Fioravante, o ’turning point’ de uma carreira que iria trocar, em 1959, a pintura figurativa pela abstração - troca que não desprezou a importância do legado construtivo do pintor russo Serge Poliakoff, nascido também há 100 anos e morto em 1969. Poliakoff bebeu na fonte de Cézanne e dos primitivos italianos, evocando a visão de um fragmentado tapete oriental em suas pinturas. Ferrari partiu para a ’abstração metafísica’, segundo Fioravante, tomando emprestado a expressão cunhada por Schenberg.

A adoção da nova linguagem, que traduziu sua visão unitária do mundo, seguindo um esquema formal próprio, não se submeteu aos princípios da arte figurativa. ’Arte não é descrever nem imitar’, definiu Ferrari, concluindo que sua função era criar ’conjuntos harmoniosos e disciplinados dentro de uma ordem estética’ que, no caso, não está desvinculada da realidade. A exposição traz exemplos evidentes dessa conexão com elementos concretos, sejam eles fachadas volpianas ou vitrais gaudianos (e há numa das obras, em que predomina a cor azul, uma referência - deliberada ou não - ao trabalho de restauração de Torres García com Gaudí na catedral gótica de Palma de Mallorca).

O pintor uruguaio, reforçando a observação do brasileiro, costumava dizer que a história da arte está repleta de exemplos que justificavam a supremacia do olhar abstrato, pois todos os povos passam do estágio da imitação para o da abstração. Essa evolução, concluiu, não é fortuita. Segue, segundo ele, o sentido do universo até a Unidade. A moda não é nada. É transitória. É preciso, defendia Ferrari, estar acima dos interesses do mercado e atento aos discursos apocalípticos de quem identifica na novidade, no discurso da ruína da arte, uma palavra de ordem. O pintor sabia que sua resistência a participar de grupos era um componente forte para garantir sua transcendência na história da pintura brasileira.

Embora sua obra não seja exibida há 31 anos em São Paulo, desde sua retrospectiva no Paço das Artes, em 1975, ela volta para ser reavaliada por uma nova geração de críticos. São 34 desenhos e nove pinturas realizados nas décadas de 1950 e 60 e reunidos pela marchande Berenice Arvani, que resgatou há um ano a obra de outro grande construtivista, o alagoano Rubem Ludolf, ao promover uma mostra de suas telas recentes. A última exposição individual de Arnaldo Ferrari foi realizada um ano antes de sua morte, na Galeria Portal. 

TEXTO EXTRAÍDO DO JORNAL - O ESTADÃO - Quarta-feira, 13 setembro de 2006 CADERNO 2


 

Curadoria: Celso Fioravante




Óleo sobre papel
década de 60
29x33 cm




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