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Egidio Rocci |
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Egidio Rocci
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Abertura: 21 de outubro de 2008, terça-feira, às 19h30
Período expositivo: de 22 de outubro a 21 de novembro de 2008
Horário: segunda a sexta, das 10 às 19h00
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a exposição
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O duplo e o outro
Angélica de Moraes
"Je est un autre"- Arthur Rimbaud
"Al otro, a Borges, es a quien le ocurren las cosas."
"Quén sueña a quién? Yo sé que te sueño, pero no sé si estás soñandome."
"Qué raro – decía - somos dos y somos el mismo."
"No sé cuál de los dos escribe esta página." (Fragmentos de Borges y yo e de Veintecinco de agosto,1983, contos de Jorge Luis Borges in Obras Completas vols II e III, Ed. Emecé, Barcelona, 1996.)
O conjunto de obras que Egidio Rocci realizou para esta mostra trata de modo vibrante de um tema que ocupa o imaginário da humanidade desde sempre. Com ele, o jovem artista paulista consolida-se entre os talentos emergidos nessa última década. São peças que refletem ou amplificam, de modo enxuto, as possibilidades de expressão contidas na idéia do duplo. Ou duplos, no plural, porque cada trabalho (ou par que constitui cada um deles) permite vários ângulos de análise, tanto sob a ótica da rigorosa construção formal de ressonâncias concretistas quanto da sensível construção poética. Razão e emoção. Basta circular diante deles, girando-os virtualmente em nossas (duplas) referências de vida vivida e vida refletida nos livros, estes outros duplos de nós mesmos.
Há ecos e espelhamentos de Borges, Rimbaud, Dostoyevsky, Edgar Allan Poe, Robert-Louis Stevenson e tantos outros escritores que fabularam sobre essa dimensão ao mesmo tempo fantástica e cotidiana, que nos habita e nos assalta e afoga. Como o mito de Narciso, enamorado de si mesmo refletido nas águas, personagem apropriado por Freud para estabelecer um dos motores de sua teoria psicanalítica. Ou a oposição entre realidade e representação, trampolim para o simulacro e a metáfora, tudo na caixa de ferramentas da expressão artística exercitada nos mais variados meios e linguagens.
"Meus trabalhos são muito metaforizáveis", admite Egidio indagando se não comete um neologismo. Sim, porque as palavras que dizemos precisam estar duplicadas (e legitimadas) pelos dicionários, estes duplos que guardam os significados de nossa fala. O artista conta que a nova série de trabalhos surgiu de muitas visitas a lojas de móveis usados, em busca de certo tipo de guarda-roupa, "daqueles comuns nos anos 1960, data em que nasci, daí porque os considero meus colegas de geração".
Descarnados da solidez de suas tábuas de madeira escura, arrancados do mundo doméstico, esvaziados de função e memória, apagados os vestígios de uso, esses móveis-esculturas emergem na essência de si mesmos, desconstruidos e apropriados da esfera das coisas para a esfera dos signos. São verbetes dicionarizáveis de armários. Encaixes de estruturas resumidas quase ao traço. Desenhos tridimensionais, libertos do peso do mundo e remetidos à natureza incorpórea das idéias. Transparecem, atravessados pelo nosso olhar.
Impossível resistir à metáfora dos casais que se completam, dos pares ideais que, espelhados um no outro, conquistam dimensão maior de vida pela convivência. A palavra conjugar, vizinha da palavra conjugal, flexiona verbos (como querer e amar) para formar o casal. Uma peça parece pensar-se, sonhadoramente borgeana, projetando-se a um nível acima do chão. Em outra, um delicado criado-mudo ancora dupla estável embora desigual. Em Exoesqueleto, a aparência não esconde a essência, bem diversa.
Em oposição às esculturas de grande formato, há a série de pequenos objetos-livros. Enquanto as esculturas têm vocação gráfica, os objetos são pictóricos. Pintura intimista, para ser aberta e folheada com vagar. Produzida pela apropriação de coisas pintadas por outros. Algo que poderíamos nomear como ready paint, pelas semelhanças de processo com o duchampiano ready made. São conjugações de materiais tão diversos como madeiras, trenas, níveis, parafusos, dobradiças e tiras de couro. Tudo reunido com inegável competência colorista e eficaz equilíbrio compositivo.
Egidio Rocci conquistou prestígio a partir de participações em salões de arte e programas de valorização de artistas emergentes promovidos por instituições culturais. Foi quando exibiu suas peças de equilíbrio precário e a excelente série de objetos em movimento. Nestes trabalhos atuais, de estruturas estáveis, observamos o equilíbrio de um artista em plena maturidade artística.
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