DÉCIO NOVIELLO: DO POP AO BARROCO

Os anos 40 mal haviam começado e o mineiro Décio Noviello (1929) já havia decidido ser artista plástico. Em sua cidade natal, São Gonçalo do Sapucaí (sul de Minas Gerais), aos 12 anos de idade, pintou e mandou emoldurar sua primeira aquarela, hoje em poder de sua irmã Celeste. De lá para cá, já são mais de 70 anos dedicados às artes plásticas.

Noviello não abdicou da arte nem mesmo quando optou, aos 17 anos de idade, pela carreira militar no Exército, onde serviu por 25 anos: primeiro na Escola Preparatória de Cadetes de Porto Alegre (RS), depois na Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende (RJ), e por fim no 12º Regimento de Infantaria de Belo Horizonte (MG), onde, com a patente de major, pediu seu desligamento (nota de rodapé 1).

Em Porto Alegre, por exemplo, o interesse do jovem cadete pelas artes o aproximou de Walmir Ayala (1933-1991), escritor e crítico de arte de grande importância na carreira do artista. Ayala estava no júri que o premiou no Salão de Arte Religiosa, em Londrina (PR), em 1968. Naquele ano, Noviello recebeu nada menos que sete prêmios em salões promovidos em quatro Estados brasileiros (MG, SP, RJ e PR). Ayala também participou do júri de seleção da 10ª Bienal de São Paulo, em 1969, a primeira em que Noviello participou. Os outros membros do júri eram Mário Schenberg, Marc Bercowitz, Edyla Mangabeira Unger e Oswald de Andrade Filho. Ayala era personalidade relevante no circuito artístico nacional na época, pois foi crítico de arte do “Jornal do Brasil” entre 1968 e 1974. 

E foi novamente Ayala quem deu a Noviello a oportunidade de adentrar em um mundo criativo totalmente novo para ele: o teatro. Em 1972, o artista mineiro estreou no teatro como figurinista e autor dos cenários da peça “A Sereia de Prata”, autoria de Ayala, montada no Teatro da Associação Mineira de Imprensa (AMI), na r. da Bahia, em Belo Horizonte. 

Transferido para a Academia das Agulhas Negras, em Resende, Noviello prosseguiu em sua carreira artística, agora como diretor artístico da Revista da Academia Militar e como ilustrador da Biblioteca do Exército. Também foi nas Forças Armadas que iniciou sua carreira no magistério, como professor de desenho, geometria, matemática e topografia em colégios militares.  

Ao voltar para Belo Horizonte, agora no 12º Regimento de Infantaria, Noviello não encontrou qualquer objeção do Exército para participar dos mais importantes eventos artísticos da época (nota de rodapé 2), como a 2ª Bienal Nacional de Artes Plásticas da Bahia (1968; nota de rodapé 3), quatro edições da Bienal de São Paulo (1969, 1971, 1973 e 1975), três edições da mostra Panorama da Arte Atual Brasileira, no MAM-SP (1970, 1971 e 1977), várias edições do Salão Nacional de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, e a celebrada e polêmica mostra “Do Corpo a Terra” (1970), curadoria de Frederico Morais. A mostra aconteceu no Parque Municipal de Belo Horizonte (que abrigou as obras externas, intervenções e performances) e também inaugurou o Palácio das Artes, que abrigou as esculturas (notas de rodapé 4 e 5).

Noviello apresentou uma intervenção em que usou fumaça colorida pra expandir cores na paisagem. O artista antecipou o que os críticos e curadores contemporâneos chamam de “pintura em campo expandido”. Para isso, utilizou material do Exército: granadas fumígenas coloridas usadas para identificar no ar as posições dos pelotões em terra. “Minha intenção era colorir a paisagem”, disse o artista.

O trabalho apresentado, contudo, era uma exceção dentro da produção pictórica do artista, que já se encontrava consolidada. Desde o início dos anos 60, Noviello já produzia uma pintura com uma conotação pop singular dentro da produção contemporânea brasileira da época. Realizava uma pintura pop intimista, pautada em relacionamentos humanos, diversa da pop produzido no eixo Rio-São Paulo nos anos 60 e 70, geralmente de cunho político e contestador, ou mesmo da americana, reconhecida por suas relações com os movimentos sociais, os meios de comunicação e a cultura de massa.
A produção do artista mineiro se pautava em dualidades e contradições inerentes ao ser humano, como a solidão do homem em meio à multidão, seus relacionamentos, a repressão e a liberação sexual, o strip-tease, o voyeurismo, o gozo, o proibido...  

Apesar de absolutamente figurativa, sua pintura pop absorvia a herança da pintura concretista dos anos 50, por meio do uso das tintas industriais, de grandes áreas monocromáticas e da serialização de formas geométricas, como as faixas bicolores..

Mas essas faixas coloridas, por exemplo, revelavam mais que a lembrança de um ideário concretista. Da mesma forma que organizavam a pintura, também a movimentavam e a desestabilizavam, pois não indicavam um ponto de fuga e, neste ponto, elas eram políticas. Nas pinturas pop de Noviello, as pessoas estão nuas, paradas e não sabem pra onde ir.

As faixas coloridas remetiam ainda a imagens de um subconsciente coletivo imprensado entre a força secular da tradição mineira, o desejo de modernidade herdado de Juscelino Kubitschek (1902-1976) e a proposta de “um país que vai pra frente”, vendida pelo regime militar.

As faixas podem ser vistas como as faixas de pedestres, as cordas dos violões e das guitarras elétricas nos festivais da canção, as cores das lâminas de acrílico usadas para iludir os espectadores de TVs em preto e branco, mas também podem ser as divisas dos uniformes militares.

Vinte e cinco anos de carreira militar não passaram incólumes na produção pictórica de Noviello e suas influências podem ser observadas na representação frontal e/ou perfilada de seus personagens ou em suas posturas seqüenciais (organizadas como na formação de batalhões militares), uma serialização possível graças à sua paixão pela serigrafia (processo de impressão que permite a reprodução de imagens em série). Inspirado pelos outdoors que povoavam a cidade, entusiasmou-se nos anos 60 com as possibilidades da serigrafia e montou um atelier artesanal em sua própria casa (nota de rodapé 6).  
Pintura e serigrafia são realmente indissociáveis na carreira do artista, mas também em sua vida, principalmente a partir da década de 70, quando Noviello dividiu-se entre quatro paixões distintas: as artes visuais, o teatro, o Carnaval e a carreira acadêmica.

“O teatro sempre foi uma paixão, mas não me bandeei para o teatro não, pois eu sempre estive lá. Quando você pinta e tem a sorte de encontrar um palco tridimensional, a pintura fica ainda melhor. Ao abrir a cortina, você encontra a sua pintura em movimento. Isso sempre foi muito gratificante”, disse. Para a ópera “Turandot”, de Giacomo Puccini, montada em Belo Horizonte (2004), Noviello criou mais de 600 trajes, muitos deles com serigrafias estampadas nos tecidos.

O artista utilizou ainda seu talento com a pintura e a serigrafia em sua profícua e vitoriosa carreira no Carnaval mineiro, ao criar figurinos e adereços para agremiações como a Escola de Samba Cidade Jardim e Escola de Samba Canto da Alvorada, ambas em Belo Horizonte, mas também em cidades do interior do Estado, como Congonhas, Caeté e Bocaiúva. Em 2010, foi homenageado com o enredo da Escola de Samba Império Nova Era, em Belo Horizonte.

Simultaneamente às carreiras nas artes plásticas, no teatro e no Carnaval, seu espírito inquieto queria mais e, às vésperas de completar 60 anos, decidiu voltar a estudar. “Eu já fazia figurino de teatro e de Carnaval quando vi um anúncio de um curso de estilismo na Escola de Belas Artes e fui correndo lá fazer a minha matrícula, mas elas já estavam encerradas. Fiquei muito chateado, mas, para a minha surpresa, no dia seguinte, recebi o convite para ser professor lá, pois não havia ninguém na cidade com a minha experiência na área”, disse. Noviello foi professor de cenografia e figurinos cênicos do Teatro Universitário e de história da indumentária no curso de estilismo da Escola de Belas Artes, ambos na UFMG, durante 22 anos, até 2009.

A virada para o século XXI recarregou Décio Noviello com uma nova energia criativa. Durante as duas décadas em que permaneceu no magistério e envolvido com o Carnaval e com o teatro, o artista desenvolveu uma aprofundada pesquisa sobre as tradições populares mineiras, que resultou em várias séries de pinturas, algumas apresentadas nesta exposição.

Congadas, cavalhadas, reisados, catopés, pastoris, moçambiques e folias de reis tomaram conta do terreiro do artista. As faixas coloridas dos anos 60, por exemplo, continuaram presentes, mas agora representando os bastões e lanças usados por mouros e cristãos em seus embates nas cavalhadas ou as varas de oferendas usadas para que os devotos e suas rosas alcancem os altares em louvor a Nossa Senhora do Rosário. Finas estampas, bordados, rendas, chitões, laços de fita, santos barrocos, candelabros, broquéis, serras escarpadas, rosas de oferendas, marias sem vergonha, contas de terços, azulejos coloniais, volutas barrocas, coroas de reis e rainhas de reinados fugidios ganharam delicadas molduras a partir de seu discreto flerte com a pintura moderna (nota de rodapé 7).

O século 21 tirou Décio Noviello de casa e o trouxe pra rua. Décio veio brincar o Carnaval, louvar Nossa Senhora do Rosário e ver a banda passar.

CELSO FIORAVANTE



DÉCIO NOVIELLO: FROM POP TO BAROQUE

The 1940’s had only begun and Décio Noviello (1929) had already decided to be a fine artist. In his hometown, São Gonçalo do Sapucaí (south of Minas Gerais state), at 12 years of age, he painted his first watercolor and had it framed, the one that his sister Celeste still has. Since then, it’s over 70 years dedicated to the arts.
Noviello didn’t give up art even when he decided, at 17 years of age, to serve in the military, which he did for 25 years: first at a cadets preparatory school in Porto Alegre (RS), then at the Agulhas Negras Military Academy, in Resende (RJ), at finally at the 12th Infantry in Belo Horizonte (MG), where he retired as a major (footnote 1).

In Porto Alegre, for instance, the young cadet’s interest in the arts led him to befriend  Walmir Ayala (1933-1991), an author and art critic who was greatly important in the artist’s career. Ayala was in the jury who awarded him at Salão de Arte Religiosa (Sacred Art Salon), in Londrina (PR), in 1968. In that year, Noviello received a total of seven prizes in art salons in four Brazilian states (MG, SP, RJ and PR). Ayala was also a member of the jury for the 10th ª Bienal de São Paulo, in 1969, the first biennial that Noviello took part in. The other jury members were Mário Schenberg, Marc Bercowitz, Edyla Mangabeira Unger and Oswald de Andrade Filho. Ayala was an important name in the national art circuit at the time, since he was an art critic at “Jornal do Brasil” from 1968 to 1974. 

And it was Ayala again who gave Noviello the opportunity to enter a totally new creative world: the theater. In 1972, the artist debuted in theater as a costume and stage designer for the play “A Sereia de Prata”, by Ayala, at Teatro da Associação Mineira de Imprensa (AMI), on Rua Bahia, in Belo Horizonte. 
Transferred to the Agulhas Negras Academy, in Resende, Noviello carried on his art career, now as an artistic director at Revista da Academia Militar (the Military Academy Magazine) and as an illustrator for Biblioteca do Exército (the Army Library). It was also in the Armed Forces that he started his career as a teacher, teaching drawing, geometry, mathematics and topography in military schools. 
 
Going back to Belo Horizonte, now at the 12th Infantry Regiment, Noviello didn’t find any objection by the Army to participate in the most important art events at the time (footnote 2), including the 2nd Bienal Nacional de Artes Plásticas da Bahia (1968; footnote 3), four editions of Bienal de São Paulo (1969, 1971, 1973 and 1975), three editions of Panorama da Arte Atual Brasileira, at MAM-SP (1970, 1971 and 1977), several editions of Salão Nacional de Arte Moderna, in Rio de Janeiro, and the celebrated and controversial exhibition “Do Corpo a Terra” (1970), curated by Frederico Morais. The exhibition took place at Parque Municipal de Belo Horizonte (with outdoor works, interventions and performances) and also inaugurated Palácio das Artes, where the sculptures were shown (footnotes 4 and 5).

Noviello exhibited an intervention where he used colored smoke to send colors out in the air. The artists was a pioneer in what contemporary critics and curators call “expanded field painting”. For that, he used military equipment: smoke grenades employed to identify platoon positions on the ground. “My intention was to color the landscape”, the artist says.  

This work, however, was an exception in the artist’s painting production, which was already consolidated. From the early 1960’s on, Noviello already made pop-influenced paintings that were singular in Brazilian contemporary art at the time. He produced pop, intimate paintings depicting human relations that were different from the pop made in the Rio-São Paulo axis in the 60’s and 70’s, usually political and oppositional, or even the Nort-American pop, known for its relations with the social movements, the media and mass culture. 

Noviello’s production focused on the dualities and contradictions inherent to mankind, like Man’s solitude amongst crowds, his relationships, the sexual repression and liberation, strip-tease, voyeurism, pleasure and the forbidden... 
 
Although absolutely figurative, his pop painting absorbed the legacy of the concretist painting of the 50’s, via the use of industrial paints, of large monochromatic areas and of serialization of geometric forms, like the bicolor stripes. 
But these colored stripes, for instance, revealed more than the memory of the concretist ideas. As well as organizing the painting, they lent it motion and unbalance, since there was no vanishing point, and, in that sense, they were political. In Noviello’s paintings, people are naked, standing still, and they don’t know where they’re going.

The colored stripes also remind us of the collective unconscious pressed between the archaic strength of Minas Gerais tradition, the wish for modernity inherited from Juscelino Kubitschek (1902-1976) and the optimism sold by the military.
The stripes can be seen as pedestrian crossings, as the strings of the acoustic and electric guitars in the popular music festivals, the colored acrylic plate people used to mimic a color TV set, but also the stripes on the military uniforms. 
The twenty-five years in the military did leave their mark in Noviello’s paintings and such influence can be seen in the frontal/lined up representation of his characters, or in their sequential postures (organized like the military battalion formation), a serialization possible thanks for his passion for silkscreen printing (a printing process that allows for the serial reproduction of images). Inspired by outdoor billboards throughout the city, in the 60’s, he was thrilled with the possibilities of silkscreen printing and set up a studio in his house (footnote 6).  

Painting and silkscreen are really inseparable in the artist’s career, but also in his life, mostly from the 70’s on, when Noviello was divided in four different passions: fine art, theater, Carnival and the academic career.

“Theater has always been a passion, but I didn’t change sides because I have always been there. When you paint and are lucky enough to find a three-dimensional stage, painting gets even better. When the curtains open, you see your painting in motion. That has always been very rewarding”, he says. For the opera “Turandot”, by Giacomo Puccini, staged in Belo Horizonte (2004), Noviello created over 600 costumes, many of them with silkscreen printed fabric.
The artist also used his talent as a painter and printmaker in his fruitful and victorious career in the Carnival of Minas Gerais, where he designed costumes and adornments to “samba schools” like Escola de Samba Cidade Jardim and Escola de Samba Canto da Alvorada, both in Belo Horizonte, but also in other countryside cities including Congonhas, Caeté and Bocaiúva. Em 2010, he was honored with the theme song of Escola de Samba Império Nova Era, in Belo Horizonte.

Simultaneously to his careers in the fine arts, in theater and in Carnival, his restlessness made him want more and, prior to celebrating his 60th birthday, he decided to go back to school. “I was already designing costumes for theater plays and for the Carnaval, when I saw an ad for a fashion design course at Escola de Belas Artes (Fine Arts School) and I tried to enroll, but there the enrollment was already finished. I was really upset but, to my surprise, the next day they invited me to teach there, because there was nobody in the city with my experience in this area”, he says. Noviello taught Stage Set and Costume Design at Teatro Universitário and Costumes History in the Fashion Design course at Escola de Belas Artes, both at UFMG, for 22 years, until 2009.
The turn to the 21st Century recharged Décio Noviello with new creative energy. During the two decades he was a teacher and became involved with theater and Carnival, the artist deeply researched the popular traditions in Minas Gerais, which resulted in numerous series of paintings, some present in this exhibition.
 
Popular festivities including congadas, cavalhadas, reisados, catopés, pastoris, moçambiques and folias de reis took over the artist’s creative mind. The colored stripes from the 60’s, for instance, are still present, but now they represent the staffs and spears brandished by the Moorish and Christians in their choreographed battle, or the offering sticks used so that the devotees and their roses can reach the altars in honor of Our Lady of the Rosary. Fine prints, laces, chintz, ribbons, baroque saints, candlesticks, sloped hills, offering roses, balsams, strings of beads, colonial tiles, baroque volutes, king and queen crowns of fleeting reigns have won delicate frames in his discreet flirtation with modern painting (footnote 7).
The 21st Century got Décio Noviello out of his house and onto the street. Décio came to have fun in the Carnival, praise Our Lady of the Rosary and watch the street parade.

CELSO FIORAVANTE




Amor - Acrílica sobre
tela colada em Eucatex
1969, 46x39 cm
 
Norma Suely x Wado
Acrílica sobre tela
1968, 100 x 80 cm
 
Óleo sobre Eucatex
1969
49x49 cm
 
Óleo sobre tela
1969
50x50 cm
 

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